Lélia Gonzalez

“A gente não nasce negro, a gente se torna negro. É uma conquista dura, cruel e que se desenvolve pela vida da gente afora.”

Mulher, negra e latino-americana. Lélia Gonzalez é o reflexo do conceito de “amefricanidade”, termo por ela elaborado para evidenciar e valorizar a diversidade cultural e racial dos povos não brancos das Américas. A autora nasceu em Belo Horizonte, no dia 1 de fevereiro de 1935, dedicando sua vida e carreira para denunciar a existência do racismo enraizado na sociedade brasileira, bem como se esforçou para lutar contra a opressão das camadas marginalizadas. Assim, Gonzales foi escritora, antropóloga, filósofa e ativista em prol do feminismo negro, vindo a falecer em 10 de julho de 1994, na cidade do Rio de Janeiro, deixando um extenso legado intelectual de resistência.

Lélia de Almeida, seu nome de nascimento, era filha de Accacio Serafim d’Almeida, ferroviário, e de Orcinda Serafim d’Almeida, empregada doméstica, mãe de leite e responsável pela criação dos 18 filhos do casal. Quanto à sua origem, Lélia ressaltava a ancestralidade diversa: pai negro e mãe indígena. Viveu em sua cidade natal, Belo Horizonte, por um curto período, se mudando para o Rio de Janeiro em 1942, em busca de melhores condições. Na capital fluminense, começou a trabalhar cedo como babá, para auxiliar a família, contudo obteve a oportunidade de estudar em instituições públicas de renome. Assim, Lélia cursou o ensino médio no Colégio Pedro II, uma escola reconhecida por ser frequentada pela classe média e famílias da elite carioca. Mais Tarde, graduou-se em geografia, história e filosofia pela Universidade Estadual do Guanabara,  atual UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro).

O contexto vivido em sua trajetória pessoal moldaram seu caminho intelectual e político. Lélia conheceu seu marido, Luiz Carlos Gonzales, no decorrer do seu percurso universitário, e juntos estabeleceram uma parceria marcada pelo diálogo crítico e  debate racial. Contudo, a família de seu cônjuge rejeitou veementemente esta união, de origem europeia, para eles a ideia deste laço conjugal era inconcebível. Luiz Carlos escolheu permanecer com o relacionamento, contudo a pressão familiar fez com que ele tirasse a própria vida, deixando um trauma em sua esposa, esta que escolheu receber e permanecer com o sobrenome Gonzalez em sua homenagem. O racismo trouxe cicatrizes irreparáveis para vida de Lélia, gerando o direcionamento de sua abordagem para a luta contra a desigualdade racial e de gênero. Neste percurso, ela teve papel fundamental na redemocratização do país, foi fundadora do Movimento Negro Unificado em 1978, também participou da politica institucional do pais pelos partidos do PT (Partido dos trabalhadores) e do PDT (Partido Trabalhista Brasileiro).

O conteúdo transmitido por Gonzalez é variado e atravessa conceitos desenvolvidos por ela a fim de abordar questões raciais e de gênero. Inicialmente, por possuir formação em  língua francesa, foi responsável pela tradução de livros de filosofia. A partir de 1970, Leila dá início a escrita de ensaios influentes, estes que serão desenvolvidos até a sua morte, como por exemplo “Racismo e Sexicismo na Cultura Brasileira”(1983)  e “A Mulher Negra no Brasil”(1984). Em sua autoria, ela tem dois livros importantes o “Lugar do Negro”(1984) em parceria com o argentino Carlos Hasenbalg, e “Festas Populares no Brasil” (1987), o qual foi premiado na Alemanha. Gonzales também possuía um protagonismo internacional, promovendo convenções pelas Nações Unidas, como a intitulada “Racism and its Effects in Brazilian Society”, em Genebra no ano de 1979. Em um contexto geral seus discursos e obras questionavam o feminismo hegemônico, uma vez que não exploravam a demanda de mulheres afrodescendentes, defendendo a necessidade de dar protagonismo às mulheres negras e indígenas.

Os termos “petruguês” e “amefricanidade” também são destaques nos pensamentos de Lélia Gonzalez. Esses conceitos foram desenvolvidos pela autora com objetivo de explorar a reflexão sobre o colonialismo e sua herança na sociedade contemporânea. Nesta lógica “petruguês” diz respeito a africanização da linguagem usada no Brasil, esta seria usualmente falada nos quilombos e senzalas, sendo as mulheres/mães negras responsável pela transmissão deste vocabulário. A “amefricanidade”, por sua vez, explora conceitos que se contrapõem ao pensamento imperialista de origem branco-europeia, buscando dar visibilidade cultural, histórica e política aos povos da América Latina.

Por fim, a partir do seu legado conceitual e abordagens exploradas, Lélia Gonzalez é referência para a luta antirracista e organizações feminista, tanto no Brasil quanto no ambiente intelectual e político internacional.

Referências

BLOGS UNICAMP. Lélia Gonzalez. Disponível em: https://www.blogs.unicamp.br/mulheresnafilosofia/lelia-gonzalez/. Acesso em: 21 set. 2025.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. Literafro: Lélia Gonzalez. Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/literafro/ensaistas/1204-lelia-gonzalez. Acesso em: 21 set. 2025.

ONU MULHERES. Celebrando a nossa Amefricanidade e o legado de Lélia Gonzalez: 5 coisas que você precisa saber neste 25 de Julho. Disponível em: https://www.onumulheres.org.br/noticias/celebrando-a-nossa-amefricanidade-lelia-gonzalez-5-coisas-25-de-julho/. Acesso em: 21 set. 2025.